Centro de São Paulo em widescreen

Para muitos, imprudência, para outros, programa de pobre. Fato é que fiquei muito curiosa em re-conhecer a minha cidade e resolvi dar um passeio a pé pelo centro de São Paulo num sábado de manhã. Surpresas não faltaram, o mesmo de sempre, mas com muito mais riqueza de detalhes. Eles estavam lá o tempo todo, quem mudou fui eu.

A rotina é tão acelerada no dia-a-dia do paulistano que criamos um bloqueio anti-spam contra o belo cenário arquitetônico escondido sob pichações e maus cuidados com nossa riqueza histórica. Basta olhar para cima. Poucos lugares no mundo sofreram influência arquitetônica tão variada quanto aqui. Num raio de poucos quilômetros, pode-se passar pelos azulejos portugueses, mesquitas, janelas italianas, comércio inglês e jardins japoneses.

  • LUZ

Vale a pena começar pela Estação da Luz , que foi reformada recentemente e que por si só já é um espetáculo para quem gosta de  fotografar.  Além disso, é uma estação central que reúne gente de todo lado. Sotaques dos mais variados (muitos realmente difíceis de entender), sacolas, muitas sacolas de quem passa pela José Paulino e vai ganhar a vida em outras cidades, gente com olhar perdido, gente que fala alto, vendedores de tudo o que se possa imaginar (de vassoura a ratos de pilhas), mulheres exibindo seus piercings nas barrigas salientes, crianças que já pintam o cabelo de amarelo com desenho do time de futebol, o empurra-empurra para entrar e sair dos trens, onde as reclamações são seguidas de gargalhadas. Vale uns 15 minutos de pura observação.

Logo ali na saída da estação está a Pinacoteca do Estado, gratuita aos sábados e que conta com um acervo valiosíssimo de diversas obras brasileiras, principalmente do movimento modernista. A construção antiga sem revestimento é linda e sempre há alguma exposição temporária para visitar.

Depois da pausa para um lanchinho (ok, não precisa ser o churrasquinho grego de R$1,50 com suco de amarelo), recomendo dar uma passada pelo Museu da Língua Portuguesa, um ambiente todo interativo, com muita informação sobre nossa língua x cultura, oficinas, cursos e palestras gratuitos. O local foi escolhido pois São Paulo é a cidade com maior número de pessoas que falam o idioma e a Estação da Luz era o ponto de primeiro encontro entre imigrantes e a língua portuguesa. É o tipo de programa que não tem faixa etária e que sempre tem algo novo a oferecer. Também possui entrada franca aos sábados.

Pelas redondezas existem diversos cortiços, onde as janelas não tem vidros e as cortinas são feitas de roupas coloridas estendidas. Ali, vivem dezenas de famílias e pseud0-famílias com suas próprias regras e políticas. São infinitas as histórias que nascem e morrem atrás de todo esse concreto.

O Centro de São Paulo é muito rico quando nossa percepção sobre ele se torna widescreen. Tem muito mais para ver, aprender, entender e sentir do que prédios velhos, miséria e violência.

Uma homenagem a Douglas Adams

Coincidência ou não, escrevo meu primeiro post deste blog numa data muito peculiar. Hoje, dez de outubro de 2010 (ou 10.10.10), representa o número 42 pelo código binário. Quem leu o livro “O Guia do Mochileiro das Galáxias” ´de Douglas Adams conhece essa referência: o número 42 é a resposta fundamental para a vida, o universo e tudo mais. Em quatro volumes, o livro conta a história de Arthur Dent e suas aventuras pelo universo depois de ter escapado da destruição do planeta Terra. Mais que isso, o autor britânico analisa e critica sarcasticamente e de uma forma muito bem-humorada a mediocridade da raça humana, suas relações interpessoais, comportamentos e crises de identidade.

Meu objetivo neste blog é um pouco mais modesto, postarei aqui minhas aventuras de  recém-chegada a cidade de São Paulo. Apesar de ser nascida e criada aqui, foi preciso passar uns tempos nas terras geladas do meu escritor preferido para enxergar melhor esta cidade e seus habitantes. A idéia é fazer um diário com dicas de entretenimento, cultura, comportamentos humanos, uma análise sobre a vida urbana, informações (para elas) e segredos (para eles) sobre o universo feminino e, por que não, reclamar da vida. Espero que gostem.

A meu querido Douglas Adams, um até logo e obrigada pelos peixes (e pelas pedras que roubei do seu túmulo).

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